A história europeia dos séculos 20 e 21 demonstrou progressos no direito das mulheres a decidirem sobre o seu corpo e a sua sexualidade. No entanto, estes direitos continuam a ser prejudicados por obstáculos significativos. Estamos a retroceder? Quais são os desafios atuais e quais as possíveis soluções? Teremos motivos para manter a esperança?

Para mim, o direito ao aborto é um bom indicador mundial do direito das mulheres a terem controlo sobre o seu próprio corpo.

Por exemplo, no meu país, a França, foi introduzida, em agosto de 2020, uma lei destinada a prorrogar o prazo legal de interrupção voluntária da gravidez de 12 para 14 semanas. Esta lei foi aprovada pela Assembleia Nacional, mas rejeitada pelo Senado e finalmente aprovada no início de 2022, após um debate muito intenso.

É legal, mas continua a ser problemático!

A impressão que tenho é que a vontade de retomar as decisões relacionadas com os nossos corpos: a contraceção, o aborto, o parto, a menstruação, a menopausa, a masturbação, a sexualidade [...] ultrapassam a esfera militante e começam, efetivamente, a invadir a esfera pessoal e familiar. Vejo-o em todos os livros, documentários e contas de Instagram que vão surgindo.

Ainda existem muitos obstáculos políticos, médicos, farmacêuticos... mas o feminismo está lentamente a alastrar-se a todos os domínios e isso é extraordinário!

Na sua obra gráfica, o corpo feminino (os seios, a vagina, etc.) parece ser central. Que reações provoca nos seus leitores? E nas pessoas que participam nos seminários que organiza? Cada geração reage de maneira diferente, por exemplo?

Fui diagnosticada com cancro e, durante essa experiência, apercebi-me de que não conhecia o meu corpo. Descobri igualmente que muitas decisões foram tomadas sem o meu conhecimento e sem que me tivessem sido efetivamente explicadas.

Foi assim que percebi que, para ser dona do meu próprio corpo, teria de conhecê-lo, Uma vez que essa era a única forma de retomar um poder que me pertencia e de escapar à infantilização médica.

Falei com médicos, parteiras e associações e fiz-lhes muitas perguntas. Em seguida, desenhei a vagina, o útero, o clitóris, as glândulas de Bartholin, a esponja uretral e as glândulas de Skene... Visualizei a forma como todos estes elementos interagiam e se integravam no meu corpo (ainda que haja uma diferença entre desenhar o projeto de uma casa e a forma como se vive nela).

Partilhei tudo isto através de um livro gráfico e através da RS (era há mais de 5 anos, era menos generalizada do que hoje, onde vemos mais imagens de clitoris e vulva) e recebi muitas reações.

O meu público é muito vasto: das adolescentes até às mulheres mais velhas. Há ainda muita vergonha na abordagem destes temas. É por isso que utilizo o humor e o desenho, pois tal permite-me ser menos frontal.;)

Aquilo a que tenho assistido, sobretudo nas conferências presenciais, é que, assim que é quebrado o gelo, todas as pessoas revelam um grande interesse e querem (e necessitam de) falar sobre estes temas íntimos. 

O meu livro tónico vagina tem mais de 5 anos de idade e ainda recebi muitas cartas que me dizem que sente bem.