Por NEIVANMADE, artista, Lviv, Ucrânia

Hoje, quero falar-lhes de algo especial. Trata-se de uma coisa que as pessoas nunca apreciam, mas ainda valorizam mais do que todos os tesouros deste mundo. A liberdade.

Esta obra de arte — «A arca» — foi criada em 1 de março. Foi a primeira semana da guerra. Aterrorizado e em choque, todo o mundo observava a forma como os ucranianos se opunham ao «terceiro maior exército do mundo». Ninguém acreditava em nós, mas já chegamos até aqui e vamos continuar a avançar enquanto conversamos. Mas, naquela altura, não tínhamos nada para nos defendermos dos ataques aéreos russos, as suas bombas caíam diariamente sobre as pacíficas cidades ucranianas. Casas, hospitais e escolas tornaram-se as valas comuns de milhares e milhares de pessoas comuns, cuja única culpa foi estarem lá. Pedimos desesperadamente ajuda, mas os líderes mundiais mais poderosos tinham receio de que a Rússia cometesse mais atrocidades. Mas que atrocidade foi considerada pior do que os assassínios, as violações e as torturas em massa de milhares de homens, mulheres e crianças? Atacar um país da UE, claro. 

Em busca de ajuda, sabíamos que nos deixariam sozinhos com maníacos sádicos. É por esta razão que a descrição não diz «FECHEM o céu», mas sim «SEGUREM o céu». Este slogan teve origem em 2014, quando ocorria a Revolução da Dignidade em Kiev. Quando brigadas policiais e paramilitares apoiadas pela Rússia alvejavam pessoas nas ruas, as pessoas livres gritavam estas palavras, chamando outras pessoas para erguer barricadas. Para evitar que o céu caísse, para ter o sol da liberdade de volta no céu ucraniano.

Os nossos soldados protegem o céu ucraniano com os seus corpos e muitos heróis morreram nos campos de batalha. Precisamos de mais armamento, precisamos mesmo muito. Suponhamos que alguns de vocês consideram que o apoio militar é desnecessário. Nesse caso, podem tentar defender-se dos bombardeamentos e do terror nuclear com sorrisos e contos de fadas sobre a paz mundial. A única coisa que conseguem alcançar desta forma será fazer os russos felizes, porque eles vencerão sem grandes esforços.

Mas nós resistimos. Como o portal de um templo antigo que conduz a um novo começo. Suponhamos que me perguntam por que razão designei esta peça «A arca». Nesse caso, digo-lhes que: hoje em dia, na Ucrânia, não importa quem somos: de esquerda, de direita, ateus, católicos, feministas, queer, socialistas, conservadores. Estamos juntos nisto, a navegar na tempestade de sangue e fogo a bordo de uma arca de Noé moderna.

Crédito da imagem: The Ark, por NEIVENMADE, 2022